sábado, 22 de janeiro de 2011

A insana corrida pelo grande PIB. [por Marina Silva]

Saindo de um período eleitoral marcante, o Brasil chega ao limiar de 2011 com desafios que, se não são inéditos, agora estão claros na sua dimensão e no seu caráter estratégico. Impossível jogá-los debaixo do tapete. São o lado frágil da ambição nacional de ser grande potência. É preciso entender que o critério PIB não corresponde necessariamente a desenvolvimento. Mede crescimento material, mas não diz para quem, como, com que horizontes, com que valores, a que custo social, humano, ambiental.

Se queremos ser potência precisamos definir o mérito desse desejo. E, infelizmente, colocaremos o pé em 2011 sem que um consenso esteja sequer próximo de ser alcançado quanto a nossa compreensão de desenvolvimento e às responsabilidades que acarreta para cada setor, cada cidadão e, principalmente, para o poder público.

O cerne do desafio é político, educacional, ambiental e de busca de igualdade. Portanto, não considero encerrado um debate que mal se deu. Esses temas não podem ser considerados “matéria eleitoral”. É agora que crescem, porque não podemos rifar o futuro no ramerrão do dia a dia, à espera das próximas eleições. Não há tempo para tal acomodação.

De um Brasil potência exige-se mais que a corrida dos PIBs ou compromissos vagos com um “desenvolvimento sustentável” discursivo que se esgarça na prática, tamanhas as contradições com as ações concretas. O Brasil potência não pode ser mera repetição de nações europeias, asiáticas ou dos EUA. Tem que sinalizar para a mudança histórica do conceito de desenvolvimento, cujo paradigma se mantém em função dos embates por poder geopolítico e econômico. Se imperassem a razão e a sensibilidade, as negociações sobre aquecimento global não andariam a passos tão lentos enquanto populações sentem o impacto de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. E, para que o Brasil faça a diferença, há que lançar mão de seus principais trunfos: a diversidade cultural, o patrimônio natural e a integração do território.

Boa parte da população está receptiva, como mostram pesquisas e os resultados da última eleição, quando os principais candidatos foram compelidos a abordar o tema meio ambiente. Mas há uma premissa para que isso seja possível: a qualidade do sistema político e sua capacidade de ser contemporâneo das preocupações da sociedade. O que vemos, especialmente na formação de governabilidade, aponta para o passado. Sob argumentos de que “não dá para fazer diferente”, assiste-se, governo após governo, à rendição aos piores traços da cultura política brasileira: o fisiologismo, o compadrio, a divisão do Estado em feudos partidários que se constituem em intransponível barreira para que as políticas públicas tenham uma lógica de projeto nacional íntegro.

Essa é a grande oportunidade brasileira no século 21, a de materializar os fundamentos de uma visão de desenvolvimento, assumindo um protagonismo global articulador que pressione e faça fissuras reais na couraça que mantém indevassável a velha geografia do poder dos séculos 19 e 20. Precisamos deixar de lado as ambições de sermos grandes nos termos dos grandes. O Brasil precisa ser grande nos termos do que levará a humanidade a superar seus erros e recriar sua vida no planeta. Se não for esse o horizonte, o presente será uma competição sem fim por louros que já murcharam.

A exemplo da destruição irresponsável do ambiente natural para produzir “riquezas”. O que temos é um mundo sob ameaça de gravíssima crise ambiental e as tais riquezas, que cobraram preço absurdo, só aumentaram o fosso da desigualdade entre pessoas e nações. É compreensível que muitos lutem para manter esse status quo. Mas é urgente que a maioria se una para dar um salto civilizatório que não seja mais mera especulação.

A realidade ditada pelo aquecimento global impõe uma revisão nos padrões de consumo e produção. O Brasil tem condições de liderar essa transição. Já passou da hora de fazer lições de casa básicas, a começar da revolução na educação. Na parede externa da escola da Superquadra 108 Sul de Brasília está registrada uma frase do grande educador Anísio Teixeira, que resume tudo: “Democracia é, literalmente, educação”.

A COP-16, realizada em Cancún, mostrou que o principal problema não são as mudanças climáticas – é a falta de um sistema político, nos níveis das nações e global, adaptado ao presente. O resultado é a lentidão exasperadora das decisões. É preciso surgir capacidade de operar, simultaneamente, vetores ambientais, sociais, políticos, culturais. Capazes, principalmente, de organizar a enorme força disposta a avançar, dispersa dentro de cada país, e transformá-la em poder político.

É impropriedade dizer que políticas ambientais adequadas emperram a economia. Talvez seja mais adequado dizer que uma postura escravagista de economia pretende submeter o futuro do mundo a sua visão estreita. Há uma economia libertária que já se mostra viável para produzir riquezas, emprego e renda. Nela estão engajados empresários, militantes socioambientalistas, segmentos do mundo acadêmico, lideranças dos mais diversos setores, comunidades, movimentos sociais, cidadãos, governantes. E que país tem condições privilegiadas para gerar um efeito demonstração planetário desse novo mundo?

O Brasil possui 70% da fauna e da flora já catalogadas no mundo e abriga 20% da diversidade biológica do planeta. Tudo em biomas variadíssimos – Cerrado, Pantanal, Caatinga, Amazônia, Mata Atlântica, Pampa e uma imensa zona costeira. Temos uma das mais diversificadas populações do mundo: mais de 220 povos indígenas e descendentes de migrantes de todos os continentes. Há ainda os povos e comunidades tradicionais que ocupam cerca de 25% do território nacional, mas sem o reconhecimento de seus direitos e de sua contribuição em conhecimentos essenciais para a economia sustentável do futuro.

Que 2011 seja o ano de nos encararmos como somos e como queremos ser. Quais são nossos erros e déficits históricos? Que fazer para superar nosso atraso em ciência e tecnologia? Como inverter o sinal de incentivo da economia predatória para a sustentável? O que nos une? Como fazer do sistema político um instrumento do futuro, mais do que uma âncora do passado?

Espero que 2011 seja o ano de pôr a mão na consciência e mobilizar os esforços mais generosos da vontade de ser mais, para, quem sabe assim, começar a frear a desmedida ânsia de ter mais.

Marina Silva, 52 anos, é senadora do Acre pelo PV, foi candidata do partido à Presidência da República nestas eleições e ministra do Meio Ambiente do governo Lula (2003-2008).

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