domingo, 9 de outubro de 2011

A poesia como liberdade e experiência do ser [Antonio Cicero]

Vivemos numa época que – com a Internet, os computadores, os celulares, os tablets etc. – experimenta o desenvolvimento de uma tecnologia que tem, entre outras coisas, o sentido manifesto de acelerar tanto a comunicação entre as pessoas quanto a aquisição, o processamento e a produção de informação. Seria, portanto, de esperar que, podendo fazer mais rapidamente o que fazíamos outrora, tivéssemos hoje à nossa disposição mais tempo livre. Ora, ocorre exatamente o oposto: quase todo o mundo se queixa de não ter mais tempo para nada. Na verdade, o tempo livre parece ter encolhido muito.


Acontece que, de maneira geral, a fruição de um poema exige mais tempo livre do que a fruição de obras pertencentes a outros gêneros artísticos. Não precisamos nos concentrar numa canção ou numa pintura ou numa escultura ou na arquitetura de um prédio para que elas nos deleitem. Podemos apreciá-las en passant. Não é assim com um poema escrito. Quem lê um poema como se fosse um artigo, um ensaio ou um e-mail, por exemplo, não é capaz de fruí-lo. Para apreciar um poema é necessário dedicar-lhe tempo.


O fato é que, numa época em que todos se queixam de falta de tempo, é evidente que sobram argumentos para aqueles que pretendem não haver mais, na nossa época, lugar para a poesia. E não são poucos os que hoje afirmam que a poesia ficou para trás: que foi superada pelos joguinhos eletrônicos, por exemplo.


Pois bem, penso o contrário. É exatamente nesta época de aceleração desembestada que a poesia mais se faz desejável. Por que? Porque o que me parece inteiramente indesejável é a aceitação passiva da inevitabilidade do encolhimento do nosso tempo livre.


A verdade é que, se praticamente não temos mais tempo livre, isso ocorre porque praticamente todo o nosso tempo – mesmo aquele que se pretende livre – está preso. Preso a quê? Ao princípio do trabalho, ou melhor – inclusive, evidentemente nos tais joguinhos eletrônicos –, do desempenho. Não estamos livres quase nunca porque nos encontramos numa cadeia utilitária em que parece que o sentido de todas as coisas e pessoas que se encontram no mundo, o sentido inclusive de nós mesmos, é sermos instrumentais para outras coisas e pessoas.


Nessas circunstâncias, nada e ninguém jamais vale por si, mas apenas como um meio para outra coisa ou pessoa que, por sua vez, também funciona como meio para ainda outra coisa ou pessoa, e assim ad infinitum. Pode-se dizer que participamos de uma espécie de linha de montagem em moto contínuo e vicioso, na qual se enquadram as próprias “diversões” que se nos apresentam imediatamente.


Em tal situação, parece-me que uma das poucas ocasiões em que conseguimos romper a cadeia utilitária cotidiana é quando, concedendo a um poema a concentração por ele solicitada, permitimos que ele “esbanje” o nosso tempo. Configura-se então um tempo livre, isto é, um tempo que já não se encontra determinado pelo princípio do desempenho. Afinal, a rigor, o poema não serve para nada. Ou bem a leitura de um poema recompensa a si própria, isto é, vale por si, ou bem ela não vale absolutamente nada.


É nesse tempo livre que nos deleitamos em flanar pelas linhas dos poemas que mereçam uma leitura ao mesmo tempo vagarosa e ligeira, reflexiva e intuitiva, auscultativa e conotativa, prospectiva e retrospectiva, linear e não-linear, imanente e transcendente, imaginativa e precisa, intelectual e sensual, ingênua e informada. E, para tanto, deixamos que em nosso pensamento interajam e brinquem uns com os outros todos os recursos de que dispomos: razão, intelecto, experiência, emoção, sensibilidade, sensualidade, intuição, senso de humor, memória, cultura, crítica etc. Desse modo, a leitura de poesia proporciona uma apreensão alternativa – e poderosa – do próprio ser.


Em todo caso, foram semelhantes reflexões sobre o sentido da poesia no mundo contemporâneo que me motivaram a conceber uma série de palestras proferidas por alguns dos teóricos e/ou poetas que tenham pensado de modo profundo e original sobre essa questão.


Poeta e ensaísta, Antonio Cicero é autor, entre outras coisas, dos livros de ensaios filosóficos O mundo desde o fim (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995) e Finalidades sem fim (São Paulo: Companhia das Letras, 2005), e dos livros de poemas Guardar (Rio de Janeiro: Record, 1996), A cidade e os livros (Rio de Janeiro: Record, 2002)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sobre as mulheres [Viviane Mosé]


O ser humano nasce pronto, mas incompleto. Essa incompletude se resolve na vida e nas relações sociais. Ser mulher, assim como ser homem, mais do que um fator biológico, é um fenômeno social. Não somente os papéis sociais, mas a própria subjetividade se compõe a partir de modelos que se fazem e desfazem de acordo com a época, a cultura, a idade, a necessidade.


O mal que a sociedade fez, a nós mulheres, assim como fez aos homens, foi a imposição de um único papel social, de um único modelo. Ao contrário dos gregos que, mesmo sendo bastante opressora com as mulheres, as representavam em papéis muito distintos, como a guerreira, a mãe, a esposa ciumenta, a mística, a sedutora, etc, nos foi dado um lugar restrito, confinado, sem opção, o lugar de santa, dona de casa, esposa casta, mãe. Mas e o lugar dos homens era um bom lugar?


O homem, mesmo ocupando o papel de opressor, também sofria a restrição de um papel social excessivamente rígido: homens não choram, são provedores da família, têm que ser viris, etc. E a luta das mulheres, ao contrário de ser contra os papéis sociais opressores, se tornou, em uma determinada perspectiva, contra os homens.


Ainda permanece nas lutas que travamos um ranço, uma reatividade, uma vingança, não somente contra os homens, mas contra a maternidade, os trabalhos domésticos, o cuidados com os filhos, a fragilidade, a sensibilidade, ou tudo que nos lembre aquilo que um dia fomos. E terminamos nos tornando um ser híbrido, que nasceu não de uma ação, mas de uma reação, um ser que nega a si mesmo, nega seu corpo, seus hormônios, suas lágrimas pré menstruais, e busca cada vez mais conquistar espaços sociais, honras, que nunca fizeram felizes aos homens e hoje oprime e apaga mulheres cada vez mais sozinhas e poderosas. Que percebem, tarde demais, devido ao limite de nosso relógio biológico, que não era nada daquilo que queriam.


Quem somos mulheres de hoje? Mulheres cada vez mais independentes, mas talvez excessivamente independentes, ou oprimidas pela independência. Por isso mulheres maravilhosas, incríveis, criativas, fantásticas, belas, mas sozinhas, aprisionadas por um plano, um projeto de vida construído em reação a opressão a que fomos submetidas. A hora agora nos exige um novo passo: não se trata mais de tomar um lugar, mas de criá-lo: qual o lugar de nossa diferença, qual o lugar que nos faz florescer? Precisamos construir um espaço que nos caiba e este espaço deve ser necessariamente complexo, como nosso corpo, nossa potencialidade. A mulher expande pra dentro, mas também explode pra fora em forma de broto, filho criação, invenção.


Viviane Mosé é capixaba e vive no Rio desde 1992. É psicóloga e psicanalista, especialista em “Elaboração e implementação de políticas públicas” pela Universidade Federal do Espírito Santo. Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O santo de Assis [Roberto Pompeu de Toledo]

O historiador Jacques Le Goff revisita a vida, o tempo e as circunstâncias do Poverello


E se Jesus voltasse? Dostoievski imaginou a cena, no famoso episódio de Os Irmãos Karamazov intitulado "O Grande Inquisidor". Um dia, Jesus aparece em Sevilha, no tempo da Inquisição. Ainda na véspera, 200 hereges haviam sido queimados. A multidão logo reconhece o recém-chegado. Vão lhe abrindo caminho e se ajoelhando. Um cego grita que o cure – e nesse exato momento a luz penetra-lhe as pálpebras. Uma família que vinha enterrar a filhinha pede-lhe que a ressuscite – e ele o faz. A agitação chama a atenção do cardeal, que sai à rua. Ele também reconhece Jesus de imediato – e o que faz? Manda prendê-lo.


Trancafiam-no numa cela. Mais tarde o cardeal vai visitá-lo. Está irritado. Com que propósito, com que direito, essa súbita aparição? "Não tens o direito de acrescentar nada ao que disseste", diz, desfiando o argumento que é o ponto alto da história. "Por que nos vieste perturbar?" E promete que, no dia seguinte mesmo, haverá de levar o intruso à pior das fogueiras. Ele não tinha o direito de acrescentar fosse o que fosse ao que já dissera. E a administração do que dissera não lhe cabia mais.


Dostoievski é ficção. No mundo real, algo próximo da reencarnação de Jesus ocorreu quando, em 1181 ou 1182, na cidade italiana de Assis, veio à luz um certo Francisco Bernardone. Ele não nasceu pobre, como Jesus – era filho de rico comerciante de tecidos. Mas se fez pobre por escolha, e inaugurou a nova vida numa cena teatral em que, tendo de um lado o bispo da cidade e, do outro, seu indignado pai, se despiu até ficar todo nu – "nu como Cristo", disse. Conhece-se, talvez como a de nenhum outro santo, a legenda de São Francisco de Assis. Ele pregava aos passarinhos. Andava com uma simples túnica, na qual amarrava uma corda, à guisa de cinto. Tinha horror a tudo o que era posse ou poder. Beijava os leprosos. Fazia poesias singelas, como o "Cântico do Irmão Sol". Sobretudo, o Poverello, como foi apelidado, tinha como projeto, mais de um milênio depois, retomar o Evangelho em sua literalidade. Foi tão bem-sucedido, na empreitada da imitação de Cristo, que consta ter sido premiado, ao fim da vida, com os estigmas – as mesmas marcas que Jesus recebeu na cruz.


São Francisco de Assis, de Jacques Le Goff (Record, 251 páginas), é um livro para quem quer se aprofundar no conhecimento do personagem-título e da sociedade de seu tempo – sua economia, suas classes sociais e estruturas mentais. O autor, um dos mais eminentes historiadores franceses da atualidade, especialista em Idade Média, já publicara em 1996 na França (e em 1999 no Brasil) um monumental São Luís – biografia de 900 páginas do contemporâneo de São Francisco que, no mesmo ano de 1226 em que este morria, assumia o trono na França, sob o título de Luís IX. Este São Francisco, se coincide com o livro anterior ao debruçar-se sobre o mesmo período histórico e ter um santo como tema, difere, primeiro, pelas proporções mais modestas e, segundo, por não ser uma obra em si, mas uma reunião de quatro textos, escritos em diferentes épocas. Advirta-se que não se trata de leitura fácil. Os dois primeiros textos, dedicados respectivamente à sociedade da época e à biografia do santo, são mais acessíveis. Os dois últimos, "O vocabulário das categorias sociais em São Francisco de Assis e seus biógrafos no século XIII" e "Franciscanismo e modelos culturais do século XIII", situam-se, já se vê pelos títulos, no mundo da alta especialização.


Le Goff, entre outras observações de quem conhece o período com intimidade, mostra como São Francisco transportou para a religião, ele que na juventude viveu entre os ricos, e assimilou-lhes as modas, as fórmulas corteses da cavalaria. A pobreza, ele a chamava de "Senhora Pobreza". Era uma namorada a quem cortejava. O "jogral de Deus", como foi chamado, aproximava-se com cuidados de amante de flores da repulsa como a miséria, a sujeira e a lepra. Às moedas, dizia que não se devia dar mais importância do que às pedras. Tudo o que cheirasse a riqueza e poder lhe merecia aversão. Não gostava de livros, porque eram objetos caros, que só a riqueza podia comprar, e porque traziam conhecimento, algo que leva à superioridade, ou à ilusão da superioridade, e portanto ao poder.


Da perspectiva de hoje, São Francisco estaria entre o hippie e o revolucionário – em qualquer caso, um contestador do sistema. Ele próprio reconhecia-se como, digamos, diferente. "Disse o Senhor para mim que queria que eu fosse um novo louco no mundo", afirmou. Sua face "revolucionária" compreende a decisão de pregar nas praças, junto ao povo, encarando o mundo de frente, bem como escolher os pobres e os simples como modelos. Mas há também, nota Le Goff, uma face "reacionária". Numa época em que a Europa se reencontrava com o conhecimento, e floresciam as universidades, condenou os livros e a ciência. Numa época em que a economia monetária propiciava a passagem do sufoco feudal para a abertura do capitalismo, condenou o dinheiro.


Francisco equilibrou-se a um passo da heresia. Não é certo, como demonstra Le Goff, que quisesse fundar uma ordem. Preferiria uma "fraternidade", uma comunidade de uns poucos, como a de Jesus. Sua insistência em cultivar a pobreza e reviver o Evangelho, numa época em que a Europa se enriquecia e o alto clero mergulhava no luxo, já era, de si, um escândalo. A ojeriza ao poder e às hierarquias piorava-lhe a situação. Ao contrário de outros movimentos contemporâneos com igual dose de contestação, no entanto, o seu não foi anatematizado. O balé de aproximações e distanciamentos em que se constituiu sua relação com a hierarquia católica desembocou em conciliação. Para começar, ele acabou concordando em transformar o movimento numa ordem, o que significava acomodá-lo no seio da Igreja. Ao redigir a Regra da nova ordem, Francisco incluiu itens como a obrigação de pregar, para todos os irmãos, e o direito de desobediência a superiores eclesiásticos, por razões de consciência. Ao passar pelo crivo da Cúria Romana, no entanto, a Regra foi drasticamente modificada. A pregação só poderia ser feita com autorização dos bispos, e o direito de desobediência desapareceu. No capítulo do culto à pobreza, Francisco havia estatuído que, em viagem, os irmãos não levassem bolsa, alforje, dinheiro ou cajado. Depois da intervenção da Cúria, só restou a proibição de ir a cavalo.


Aos poucos, desarmava-se o franciscanismo de sua radicalidade. E, se isso pôde ser desencadeado ainda em vida do santo, depois se tornou muito mais fácil, e célere. A canonização veio logo em 1228, dois anos após a morte, o que sugere a estratégia de, sem perda de tempo, apropriar-se de sua memória e administrar-lhe o culto, em vez de deixá-lo perigosamente solto nas ruas e praças que Francisco tanto percorreu. Mais dois anos e, em 1230, dá-se a "injúria", como diz Le Goff, da majestosa basílica erguida em Assis em louvor do santo – monumento que, até hoje, faz simultaneamente a delícia dos turistas e admiradores da arte e a negação do cultuado. Não demorou igualmente para que o dinheiro fosse aceito na Ordem, salvo para fruição individual, e o estudo e os livros entrassem na rotina dos irmãos.


Fica-se indeciso entre o que mais admirar. Se a empreitada de São Francisco ou a habilidade com que ela foi absorvida e retrabalhada. Se o desafio do santo ou a facilidade com que tal desafio foi desarticulado. O que nos traz de volta ao Grande Inquisidor, que não é citado no livro de Le Goff, nem tem nada a ver com ele, mas que nos serve para formular uma conclusão. Que fogueira, que nada. O poder e a ordem estabelecida têm modos muito mais sutis e eficazes de lidar com o que lhes soa inconveniente.



Publicado na Revista Veja, Edição 1 701 - 23 de maio de 2001

domingo, 2 de outubro de 2011

“Google é um negócio, não uma igreja” [Entrevista com Ken Auletta]


Crítico de mídia da revista New Yorker há mais de 30 anos, o jornalista Ken Auletta esmiuçou durante dois anos a história da Google, “um dos negócios mais rentáveis, poderosos e estranhos do mundo”. O resultado é o livro Googled (Agir, 508 páginas, por R$ 64,90), traduzido no Brasil por Débora Chaves, com posfácio de Pedro Doria. Investigando as origens da Google, Auletta leva o leitor a um passeio pela revolução (ainda em curso) digital. A história da maior empresa virtual do planeta serve também para compreender como seu sucesso e crescimento influenciam as chamadas “empresas do mundo real”.


Em entrevista ao Globo por e-mail, Auletta diz que a cultura de engenheiros – fonte da ousadia das empresas “pontocom” – é também o seu maior defeito. Segundo o especialista, ao mesmo tempo em que esses jovens criam ferramentas capazes de reinventar a maneira como fazemos coisas básicas, eles têm dificuldade em construir relacionamentos de confiança, e em antecipar o que querem os anunciantes ou lidar com o desejo de privacidade de pessoas e governos.


Auletta recomenda às empresas de mídia tradicionais que, em vez de cruzar os braços e culpar a revolução digital por seus prejuízos, aprendam a fazer parcerias com empresas de tecnologia como Google, Amazon e Apple, e a ganhar dinheiro com isso. E cita um clássico da sabedoria popular: “Se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

Márcia Abos.


O que faz a Google ser tão revolucionária?


Ken Auletta– Antigamente você ia a uma biblioteca ou fazia uma chamada de telefone para obter informações. Hoje, a informação está a seu alcance em meio segundo com uma pesquisa no Google. Quer assistir a um vídeo perdido há muito tempo, o YouTube da Google está a seu alcance. Telefones inteligentes, que estão substituindo os PCs? O Google Android tem a maior fatia de mercado. Está perdido e precisa de direções? O Google Maps está lá. E-mail? O Google Gmail está disponível. E o que é verdadeiramente revolucionário é que tudo é gratuito. A Google faz dinheiro da mesma forma que a TV ou o rádio tradicional: com venda de publicidade.


O que as empresas de mídia tradicionais podem aprender com a Google?


K. A. – Contratem grandes engenheiros e os deixem fazer perguntas desconfortáveis, tais como: “Por que estamos fazendo as coisas dessa maneira? Por que não podemos ser mais eficientes?” No mundo digital, o engenheiro pode ser um criador de conteúdo. Engenheiros criaram Google, Apple e Facebook. Enquanto passamos duas horas pesquisando no Google, explorando o iPad, ou no Facebook, não estamos lendo um livro ou vendo TV.


Como a Google transforma as empresas do mundo real?


K. A. – A Google tem perturbado muitas indústrias tradicionais. Cobrando anunciantes só quando usuários clicam na propaganda, ou sendo capaz de precisar a audiência alvo de cada campanha publicitária, a Google transformou a publicidade. Permitindo que os internautas localizem notícias que os interessam, a Google ajuda a enfraquecer os jornais. E a busca Google afugentou as pessoas das bibliotecas. São apenas alguns exemplos de indústrias impactadas por essa gigante e pela revolução digital.


Como empresas tradicionais de mídia e companhias do mundo real podem competir com a Google? Que mudanças devem fazer para enfrentar a revolução digital?


K. A. – Sentar, cruzar os braços e culpar o Google por seus problemas é uma atitude condenável. As empresas devem ser humildes e perceber que existem formas de parceria com as companhias digitais. Empresas de mídia produzem conteúdo – músicas, notícias, programas de TV, filmes, livros – e a Google oferece plataformas para torná-los disponíveis. A Google já aprendeu que suas plataformas, como o YouTube, precisam de mais conteúdo do que filmes caseiros fornecidos pelos usuários. É assim que a mídia tradicional e o mundo digital estão se aproximando.


Quais as virtudes e os defeitos da Google?


K. A. – A força de uma empresa como a Google é sua cultura de engenharia; sua fraqueza é sua cultura de engenharia. Engenheiros são hábeis em coisas que podem medir, como algoritmos de busca. São menos hábeis com o que não podem medir – por exemplo, encontrar formas de construir relações de confiança com outras companhias, antecipar o que anunciantes desejam como forma de construir relações de confiança com outras empresas, entender por que pessoas e governos se preocupam com sua privacidade ou monopólios, ou compreender as razões das autoridades chinesas ou iranianas para impedir que cidadãos de seus países tenham acesso a todas as informações do mundo.


O que podemos esperar do futuro da Google? Quais desafios ela vai enfrentar?


K. A. – A Google tem se saído bastante bem na competição com empresas como a Microsoft. Tem se saído pior em lidar com governos ao redor do mundo. Além dos desafios governamentais, redes sociais como o Facebook são outra pedra no caminho. O botão “curtir” do Facebook é uma ameaça mortal à Google, porque receber indicações de seus amigos sobre o que comprar, a qual filme assistir, é mil vezes mais eficiente do que uma avalanche de centenas de links, resultado de uma busca no Google.


A Google realmente está mudando o mundo para melhor, como diziam desejar seus criadores?


K. A. – Tanto para melhor, quanto para pior. Melhor porque todo tipo de informação está disponível, e de graça. Posso ler nas minhas telas digitais um jornal brasileiro ou o livro de um autor brasileiro traduzido. Mas se essas pesquisas significam que não pagarei pelo jornal ou pelo livro, ou que vou me contentar com uma leitura rápida em vez de me aprofundar, estarei prejudicando o jornal, o escritor e a mim mesmo.


Você lembra no livro que o slogan informal da Google é “não faça o mal”. Ele é seguido ao pé da letra?


K. A. – Não, é só um slogan. A Google é um negócio, não uma igreja. Às vezes eles fazem coisas nobres, como resistir à censura na China. Mas duvido que um jornal que sofre prejuízos por causa da busca Google vá dizer que tudo que eles fazem é nobre.


Por que estamos há mais de dez anos tentando descobrir como ganhar dinheiro com a internet?


K. A. – Estamos fazendo progresso lentamente. No iTunes, da Apple, cidadãos pagam não apenas por música, mas por livros, programas de TV, filmes, jornais e revistas. Pagamos também por vários aplicativos para nossos celulares, incluindo jogos e toques. O YouTube começou a cobrar pela exibição de filmes. A mídia tradicional tem conseguido aumentar suas receitas com parcerias com empresas digitais como Google, Apple e Amazon. A questão é se estas receitas são capazes de compensar as perdas com os lucros perdidos com conteúdo impresso e analógico.


Como a Google transforma nosso comportamento, nossa forma de pensar e apreender o mundo? Você acredita que a humanidade está evoluindo graças à revolução digital? Ou estamos piorando?


K. A. – É mais saudável olharmos para a revolução digital como uma oportunidade ou um desafio, não como algo que devemos temer. A informação e a capacidade de compartilhá-la alimentaram a Primavera Árabe. As pessoas têm muito mais chances de se educar e se entreter. Mas, se preferirmos usar essa facilidade como um atalho –fazendo uma busca no Google para um trabalho escolar, em vez de mergulhar nos livros – estamos prejudicando a nós mesmos.


Reproduzido de O Globo, 26/9/2011.